Ao amor da minha vida
Hoje, fui beber um café com uma amigo de longas datas. Penso que não me lembro de mim sem me lembrar dele e vice versa. Falámos de ti. A conversa veio do nada. Falei eu de ti. Ainda. Já passaram tantos anos e ainda se fala. Nada já te faz lembrar. Não tenho nada teu. Nada.
Lembro-me de tu seres uma doença, para a qual eu não tinha cura. Uma dor cativa. Que eu aceitava sempre.
O meu amigo perguntou-me se fosse hoje se seria a mesma coisa. Penso que não. O tempo mata-nos como te matou a ti em mim. Como me trucidou em ti. Tornei-me muito mais homem, não no sentido da palavra. Apenas mais isso. Frio. Mundano. Habituado a lidar com isso. Tu serias uma mais. Eu não quero que o sejas. Nunca o foste.
Encontramo-nos há pouco tempo. Ias com o teu filho, é parecido contigo. Como sempre dizes que não tens tempo. Acabámos a falar imenso. Tu estás como te recordo, reconheço que as minhas pernas já não tremeram. Reconheço que estava extremamente calmo, é aquilo que eu estava a falar. Sereno. Tinha o controle completo da nossa conversa. Enquanto falavas lembrei-me de várias situações porque passámos. Se fosse hoje não seria assim. Tu, devias estar a pensar o mesmo.
Fomos tanto e agora somos nada. O meu mundo foi construído para um navegar calmo não para um mar revolto como tu.
Amei-te tanto que chegava a doer, mas nunca to disse. Nunca o demonstrei. Fazia parte de uma imagem qualquer. Lembro-me de chegares ao pé de mim, nervosa, e dizeres-me que estavas grávida e eu perguntar de quem era o pai. Tu fugiste. Eu corri atrás de ti. Choraste. Eu não chorei. Nunca chorei. Passámos a noite sentados nuns degraus, a ver a auto-estrada, e a escolher o nome para o rebento. Desapareceste durante algum tempo. Tinhas ido a Espanha fazer um aborto. Eu, ainda ofereci-me para te pagar, negaste. Nessa noite recordo-me que morremos os dois. Andei perdido. Cometi loucuras. Desaparecemos um do outro.
Voltámo-nos a encontrar várias vezes. Voltámos a tentar amar-nos várias vezes mas já não era o mesmo.
Recordo-me como te conheci, numa festa. Eu estava bêbado, era normal. Perdido em imagens de culto. Lembro-me que vi o teu olhar. Estavas acompanhada. Contei até 20, ganhei coragem.
Cheguei ao pé de ti, agarrei-te num braço e disse-te “Eu e tu, que tal?” Roubei-te um beijo e voltei costas. Ficaste parada. Eu parado. Olhámo-nos. O som desapareceu. Voltei costas para fugir. Fugi.
Mais tarde encontrei-te nas ruas da nossa cidade. Tu de uma margem eu de outra. Parámos. Olhámos. Continuámos. Ficámos longos minutos imóveis e estáticos na esperança que o outro avançasse. Ninguém avançou, pelo menos nessa noite. Numa noite fui ao cinema ver “What Happened to Harold Smith” e existe uma cena semelhante, lembrei-me de ti. Lembro-me sempre de ti quando vejo este filme.
Recordo-me, quando decidi ir à praia em Maio. Tinha perdido o comboio para Setúbal. Estava irritado. Entro na estação, para comprar um bilhete, e choco contra uma pessoa. Eras tu. Ajudei-te a apanhar a mala. Ajudei-te a erguer. Ajudei-te. Estavas diferente. Tinhas o cabelo diferente, mas continuavas com o mesmo olhar. Um olhar de que vê coisas pequenas. Frágil. Tu és frágil. Vieste ao pé de mim e perguntaste-me se eu tinha visto a tua amiga. Eu perguntei como ela era, tu respondeste-me que não sabias, que ela era imprevisível. Eu fugi mais uma vez. Fizemos a viagem a olhar um para o outro e a evitares-me. No barco ofereceste-me um desenho e a tua companhia. Recordo-me que na viagem de regresso, no comboio, as luzes apagavam e acendiam e nós loucos. Agarrados. Recordo-me que no outro dia não sabíamos se devíamos ou não assumir algo entre nós. Foram dois anos. Muita coisa aconteceu, muita coisa boa e má.
Ana, sê feliz.
Lembro-me de tu seres uma doença, para a qual eu não tinha cura. Uma dor cativa. Que eu aceitava sempre.
O meu amigo perguntou-me se fosse hoje se seria a mesma coisa. Penso que não. O tempo mata-nos como te matou a ti em mim. Como me trucidou em ti. Tornei-me muito mais homem, não no sentido da palavra. Apenas mais isso. Frio. Mundano. Habituado a lidar com isso. Tu serias uma mais. Eu não quero que o sejas. Nunca o foste.
Encontramo-nos há pouco tempo. Ias com o teu filho, é parecido contigo. Como sempre dizes que não tens tempo. Acabámos a falar imenso. Tu estás como te recordo, reconheço que as minhas pernas já não tremeram. Reconheço que estava extremamente calmo, é aquilo que eu estava a falar. Sereno. Tinha o controle completo da nossa conversa. Enquanto falavas lembrei-me de várias situações porque passámos. Se fosse hoje não seria assim. Tu, devias estar a pensar o mesmo.
Fomos tanto e agora somos nada. O meu mundo foi construído para um navegar calmo não para um mar revolto como tu.
Amei-te tanto que chegava a doer, mas nunca to disse. Nunca o demonstrei. Fazia parte de uma imagem qualquer. Lembro-me de chegares ao pé de mim, nervosa, e dizeres-me que estavas grávida e eu perguntar de quem era o pai. Tu fugiste. Eu corri atrás de ti. Choraste. Eu não chorei. Nunca chorei. Passámos a noite sentados nuns degraus, a ver a auto-estrada, e a escolher o nome para o rebento. Desapareceste durante algum tempo. Tinhas ido a Espanha fazer um aborto. Eu, ainda ofereci-me para te pagar, negaste. Nessa noite recordo-me que morremos os dois. Andei perdido. Cometi loucuras. Desaparecemos um do outro.
Voltámo-nos a encontrar várias vezes. Voltámos a tentar amar-nos várias vezes mas já não era o mesmo.
Recordo-me como te conheci, numa festa. Eu estava bêbado, era normal. Perdido em imagens de culto. Lembro-me que vi o teu olhar. Estavas acompanhada. Contei até 20, ganhei coragem.
Cheguei ao pé de ti, agarrei-te num braço e disse-te “Eu e tu, que tal?” Roubei-te um beijo e voltei costas. Ficaste parada. Eu parado. Olhámo-nos. O som desapareceu. Voltei costas para fugir. Fugi.
Mais tarde encontrei-te nas ruas da nossa cidade. Tu de uma margem eu de outra. Parámos. Olhámos. Continuámos. Ficámos longos minutos imóveis e estáticos na esperança que o outro avançasse. Ninguém avançou, pelo menos nessa noite. Numa noite fui ao cinema ver “What Happened to Harold Smith” e existe uma cena semelhante, lembrei-me de ti. Lembro-me sempre de ti quando vejo este filme.
Recordo-me, quando decidi ir à praia em Maio. Tinha perdido o comboio para Setúbal. Estava irritado. Entro na estação, para comprar um bilhete, e choco contra uma pessoa. Eras tu. Ajudei-te a apanhar a mala. Ajudei-te a erguer. Ajudei-te. Estavas diferente. Tinhas o cabelo diferente, mas continuavas com o mesmo olhar. Um olhar de que vê coisas pequenas. Frágil. Tu és frágil. Vieste ao pé de mim e perguntaste-me se eu tinha visto a tua amiga. Eu perguntei como ela era, tu respondeste-me que não sabias, que ela era imprevisível. Eu fugi mais uma vez. Fizemos a viagem a olhar um para o outro e a evitares-me. No barco ofereceste-me um desenho e a tua companhia. Recordo-me que na viagem de regresso, no comboio, as luzes apagavam e acendiam e nós loucos. Agarrados. Recordo-me que no outro dia não sabíamos se devíamos ou não assumir algo entre nós. Foram dois anos. Muita coisa aconteceu, muita coisa boa e má.
Ana, sê feliz.


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